Susana Sánchez Aríns

                Nomeada por: Eduardo Estévez Nomea a: Gloria Sánchez

Há uma poesia que sempre se esquece e que muitas vezes é a base dos nossos sonhos: a poesia para nenos e nenas. E entre todas as poetas que dedicam o seu labor á infância uma é a minha preferida (e tia): Gloria Sánchez. Fafarraios segue a ser, anos depois da sua publicaçom, uma delícia poética, um petisco para gourmets. Da obra de Gloria Sánchez aprendim e tomei como próprias duas características: o retranqueiro sentido do humor e a assimilaçom da literatura de tradiçom oral como fonte onde ir beber na hora de escrever. Bio-bibliografía: Sou o típico produto dos concursos de redaçom escolares. Lembro uma neninice completa a representar ao colégio do Fojo em quanto certame havia, umas vezes com mais sucesso que outras. Isto levou-me a um temperám fastio disso que chamam mundo das letras e a um abandono da actividade literária mesmo antes de começá-la. Muitos anos me levou recuperar a voz, a vontade e o quarto próprio… No ano 2008 ganhei o certame Xosé María Pérez Parallé com o livro [de]construçom, depois de ter perdido algum outro com certo livro abandonado nas gavetas. Agora ando pendente da publicaçom do seguinte, aquiltadas, na estaleiro editora e com algum que outro pequeno projecto compartilhando com gentes com a que dou nos caminhos da vida. Na rede: Caderno persoal Poética: José, um amigo, apanhou um pau do chão e disse para todos: Aqui dentro há uma sereia. Onde, ó?, respostou alguém. Ides ver que sim. Tirou de navalha (sempre andava com umha navalhinha no peto), sentou apoiado num carvalho, e mentres uns se banhavam, outras liamos, outros dorminhavam, ele dedicou-se a desbastar o garabulho e modelar-lhe as formas. À noitinha, a figura duma sereia assomou das suas mãos e ficou nítida perante os nossos olhos. Nesse dia eu aprendim que era a arte, que era a poesia. E nom, nom é o acto de ver o que outras pessoas nom vem, romântica e elitista concepçom, mas o esforço de abstrair o comum para que as outras pessoas dêm visto aquilo de diferente que  percebemos no mundo que nos envolta. Ser poeta é andar com a navalha no peto pronta a desbastar pauzinhos. E cuidado, que sem uma interlocuçom atenta também nom há poesia. porque uma sereia acovilhada no fundo de uma gaveta pouco mais é que um garabulho sem desbastar.   Dous poemas que reflictem estas ideias:

placas solares

embebo-me da energia que me circunda e a concentro na quentura dun verso   esta poeta é umha intercambiadora térmica.

[de]construçom. Espiral Maior 2008

seca

sinto urgências de poesia e nom saem os versos anegam-me as palavras como areia mas o sacho nom atende a água é tanta e o esterco mariscam as mulheres eu aprendo é só aguardar que o mar se retire caneta pronta aquiltadas (pendente de publicaçom)   Poemas:

kore

por eu ser em pedra dizes-me hierática envolveita em pele máguas bostelas esqueces que a mármore nunca cicatriza.

as meninas

meninas de antano carregárom leiteiras enormes atendérom o pote na lareira levárom na testa malas alheias do comboio á fonda da fonda ao comboio para que umha infanta tivera cão espelho artista no retrato menina que lhe servisse água em jerro de argila perfumada

aquiltadas

somatizaçom

chega o vírus / o golpe na face e damos em notar no organismo um algo estranho para a rotina: a saliva que nunca é percebida a arroiar / violenta enchente de rio as no dia a dia ausentes amídalas facas e alfinetes que se incrustam com cada palavra sussurro zumbido no pariental occipicial no esfenoide relembrar a existência de um oco onde o olho direito onde o esquerdo porque estala no palpebrar incessante saber das juntas todas de todas as jogas de bigornas martelos humildes estribos do vínculo secreto entre nariz e ouvidos e a calor. a quentura que retira mantas a seguir do atremofebrado frio que mantas centas nem afuguentam nem espantam e chegou o vírus. a consciência do real. a doutora diz nom ser mais que gripe. eu penso que um algo de gaza¹também há. (1) e de congo e de sri lanka e de somália e de colômbia e de afeganistám e de iraque e de mianmar de guiné conakri de darfur de…    

kavafis leva razom

 

nom ambiciono destragar este recanto desejo gozar a vida aqui, que me tocou neste recanto que nom quero arruinar porque aqui é o mundo e é todo meu.

[de]construçom

 

poeira

haverá ocasiões / tantas / sem vontade ao menos de só segurar um pano e esfregar o paraíso. percorrerám os dedos as estantes e ficará colado às gemas com o vigor das penugens o desalento.

[de]construçom

 

liçom de história

de seguires o caminho do vede subindo por curantes até os altos de fraíz podes contemplar a lagoa sacra. dizem que há séculos, em tempos dos mouros, houve um grande longo e sanguinoso combate na gândara que se estende nestas cimas de olives. uns dizem que carlomagno foi aqui acabado; outros dizem que foi ele que venceu um mamede ou um almançor. o caso é que avós de avós tenhem encontrado, juro-vos, gastos capacetes espadas comestas de ferrugem crânios furados por toda esta alargada branha de gestoso. dizem que foi tal a matança o sangue verquido a desolaçom em campos valados lavouras que todos os cadáveres foram soterrados sob as terras e águas que ante ti se estendem aqui no alto, ao sopé da mámoa do boimorto. e dizem que a lagoa sacra nom seca nunca porque no fundo das suas águas encorgadas dormem calmas as lajas do velho cemitério. dizem outros que essas lajas nom som lajas mas perpianhos traves pedras colunas que erguiam umha vila doutras idades. antioquia dizem uns que era, valverde eimil ou duio a fermosa dizem outros. dizem que tam soberbos foram aqueles que a habitaram, tam crueis e infieis, que este nosso deus humilde clemente provou em secreto dos vilegos a bondade: enviou um velho esmoleiro, jesus cristo ou noé dizem uns que dizem que era. ninguém lhe deu pousada. só a casa mais pobre do mais miserável bairro. decidiu a ira divina na lama afundir a cidade por isto ou por nom acolher os bois da raínha lupa, segundo digam os uns ou os outros, que todos dizem mas ninguém sabe. a lagoa nunca estinha para nom libertar penados. dizem também que algumhas noites pode ser escuitado o dindondám das campás o canto do galo. mas eu vim a lagoa seca. há três anos. sem água segue. e nom há lajas, nom há campa nom há telhados de cidades ardidas em sangue e podredume. só urzes gestas pequenos pintafontes.